A história da pichação e a pixação paulistana
O texto a seguir foi adaptado a partir da monografia “Entre muros, prédios e tintas: o perfil do pixador paulistano”, escrita e apresentada em 2014 por mim e minhas colegas, Ana Paula Ferreira Oliveira e Laísa Camargo Alves, para a obtenção do bacharelado em Comunicação Social - Jornalismo.
Mais que olhar para um nome na parede, a proposta do projeto foi enxergar a pessoa por trás da lata de spray.
Apesar de estar presente em toda a cidade de São Paulo, a pixação é uma comunicação fechada. Esta é a chance de conhecer um pouco mais desse universo conturbado e, gostando ou não, fascinante.
X ou CH?
Pichação e pixação (com X) são coisas diferentes. Pichação é qualquer escrito em parede, já a pixação, ou pixo, é o nome do movimento paulistano. O texto apresenta ambas definições e históricos com a distinção gráfica.
História da pichação no mundo
Pompeia, cidade localizada a 22 km de Nápoles, na Itália, é considerada por estudiosos o berço da pichação. Atingida em 79 d.C. pela erupção do vulcão Vesúvio, a cidade ficou encoberta por cinzas, lama e lava até meados do século XVIII, quando foi redescoberta e começou a ser estudada por arqueólogos. Ao investigar os escombros da cidade, foram encontrados os primeiros registros de escrita em muros. Feitas em carvão, com um instrumento chamado graphium, as pichações podiam ter cunho poético, publicitário, político, além de anunciar eventos de interesse público e até mesmo serviços sexuais.
Apesar de não existir legislação específica na época, havia uma espécie de consenso sobre o que deveria permanecer ou não nos muros, existindo, inclusive, dealbatores, pessoas cujo trabalho era cobrir as escrituras.
Séculos mais tarde, na Europa, ocorre a marginalização da pichação em 29 de dezembro de 1884, data do primeiro registro policial contra o ato de escrever em muros da capital francesa. É em Paris, também, onde a pichação política ganha força em maio de 1968, com a onda de protestos estudantis que evoluíram para uma greve geral contra o governo do então presidente Charles De Gaulle, que renunciou um ano depois. Frases como “Exija o impossível”, “Faça amor, não faça guerra” e “É proibido proibir” cobriram paredes parisienses nesse período.
Já em Nova Iorque, os primeiros registros de escrita datam do início da década de 1960. Inicialmente, as tags aconteciam nos muros, mas, em busca de visibilidade, os writers, como eram chamados, começaram a grafitar os trens do metrô.
O que era denominado grafitti em Nova York equivale ao que no Brasil conhecemos por “pichação”, embora haja diferenças de estilo entre o que se produziu na América do Norte e o que tem sido feito na América do Sul. Da mesma forma que era praticada por solitários que só pretendiam escrever seus nomes nas superfícies, era utilizada por gangues de todos os tipos e origens para demarcar as suas posses territoriais. Uma escritura caligráfica e infantil, marcada pela legibilidade e muitas vezes pela adoção de codinomes agressivos (CAJÉ, 2011. p.126)
Schultz (2010) afirma que o grafite nova-iorquino era uma forma de protesto social, e que sua marginalização aconteceu graças a técnica utilizada pelas gangues para delimitar território:
O termo pichação remete às inscrições realizadas com piche em muros na antiga Roma. Adquiriu arbitrariamente uma conotação pejorativa, quando se tornou uma prática de protesto social nos bairros periféricos de Nova Iorque, na década de 1960, e, mais tarde, quando foi utilizado por torcidas organizadas em práticas ilegais ou por grupos de controle do narcotráfico.
O Brasil e o pixo
No Brasil, as primeiras pichações surgiram em São Paulo, em meados da década de 1960. Inicialmente eram uma forma de protesto contra a ditadura militar, praticado por integrantes de movimentos estudantis. Frases como “Abaixo a ditadura” e “Terrorista é a ditadura que mata e tortura” preenchiam os muros da cidade durante manifestações e comícios contrários ao regime.
Também aconteciam pichações em grupos, que se organizavam para realizar o protesto de maneira mais segura durante a madrugada. Os grupos contavam com cerca de quatro pessoas; enquanto uma pichava, as demais faziam guarda nas esquinas da rua. Os locais escolhidos eram de grande visibilidade, as pichações eram legíveis e tinham o intuito denunciar a opressão da ditadura.
Seguindo o exemplo de revoltas sociais, no Brasil, os movimentos estudantis foram ganhando força durante a ditadura militar e, para campanha contra a opressão militar, estes movimentos faziam uso da pichação em muros assim como as manifestações na Europa o faziam. As gangues também utilizam uma forma de inscrição para demarcar território, com seus códigos e símbolos característicos. Paralelamente ao surgimento do grafite, na década de 60, surgem também as pichações — que vão desde a manifestação política, passando pela competição entre aqueles que conseguem atingir os locais de acesso mais difícil (como o alto de edifícios) — até o simples ato de vandalismo em prédios públicos e monumentos. Nessas atividades transgressivas, o uso do spray torna a técnica fácil e rápida, muito adequada para facilitar a fuga dos flagrantes da vigilância e da polícia (LAZZARIN, 2007 apud LOPES, 2011).
Depois desse período, São Paulo ficou marcada pelas pichações poéticas, como “Ventos estomacais moverão moinhos nos planaltos centrais” e “Eu pixo porque peixe”. Também há registros de frases bem humoradas, como “Quem pixa o rabo espicha”, e enigmáticas, a exemplo de “Gonha mó breu”.
Cão Fila
Um episódio da década de 1970 contribuiu para a formação deste movimento paulista. O criador de cães Antenor Lara Campos deixava sua marca Cão Fila Km 26 pela estrada. O recurso era utilizado como publicidade do seu canil, que ficava no quilômetro 26 da Estrada do Alvarenga, em São Bernardo do Campo. Em entrevista à revista Veja, em 1977, Campos afirmou que, apesar de 60% das pessoas não entenderem o significado das inscrições, a prática gerava bons resultados, pois recebia cerca de 600 visitantes e vendia 20 filhotes por mês.

Com essa ação, que poderia ser caracterizada como marketing de guerrilha por fugir dos meios tradicionais de comunicação, Cão Fila tornou-se um ídolo para os jovens que viam sua marca na estrada e começaram a imitá-lo.
Histórico da Escola Paulista de Pichação
A partir dos anos 1980, o movimento tomou força e consolidou-se dentro do contexto paulistano. Nesse período, a cidade ficou marcada pelas inscrições de Juneca, codinome de Oswaldo Junior.
Juneca e seu parceiro de pichação, Pessoinha (Antonio Pessoa) estão entre os precursores a deixarem seus nomes na cidade com o propósito de serem reconhecidos. Ambos não chegaram a desenvolver estilo próprio de tag reto, como pode ser observado na figura a seguir.

Em meados dos anos 1980, o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, travou uma batalha contra a pixação. Quadros chegou a publicar no Diário Oficial do município “Juneca vai pichar a cadeia”. Com a tentativa de repressão do governo, a pixação ganha ainda mais adeptos.
Nesse período, influenciada pelo movimento punk, a pixação adquiriu as características estilísticas que são encontradas até hoje, inspiradas principalmente nas capas de disco de bandas como Iron Maiden e Kiss. É o início do tag reto, da “pixação”.

Tchentcho, Di (Edmilson) e Xuim (Marcelo Lins) são os pixadores mais representativos desse período. Eles também são os precursores da modalidade escalada e reconhecidos por iniciarem uma disputa no espaço urbano. A provocação acontecia e era resolvida com tinta nas paredes; não costumava haver violência física entre os pixadores.
Na categoria muro, surgem as grifes. Entre as principais do período estão Homens Pizza, Os Melhores, Os Piores, Os Sempre +!, e Os Mais Amigos.
Ainda no início do movimento, o fenômeno da conurbação fez com que a pixação chegasse rapidamente às cidades da região metropolitana, como Osasco, Santo André e São Bernardo do Campo, e, mais tarde, ao interior e outros estados.
Os anos 1990 ficam marcados pelo ego do pixador. É o período em que acontecem as pichações consideradas históricas, devido à dificuldade para execução e à cobertura da mídia. Entre as de maior destaque, está a de Di ao prédio Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, no fim de 1990. Depois de realizar a pixação, Di ligou para a redação do Diário Popular passando-se por um morador indignado. Foi publicada a seguinte nota:
O Conjunto Nacional, que fica na Avenida Paulista, 2.073, foi alvo de pichações no setor residencial, que tem entrada pela rua Augusta, em Cerqueira César. Segundo um morador, que pediu para ser identificado apenas como Di, os pichadores podem ter entrado no prédio pulando de cima de um orelhão para o beiral da fachada. Dali, teriam quebrado uma janela, no 1º andar. Ele contou que, além de quebrar o vidro e amassar essa janela, os invasores arrombaram portas. A administração do prédio, que não registrou a ocorrência na Polícia, negou as informações, confirmando apenas que houve pichação. Di afirmou que ficou apavorado com a situação. Segundo ele, o esquema de segurança do prédio não poderia permitir esse tipo de ação, visto que há homens fazendo ronda por dentro e por fora. “À noite essa segurança é reforçada”, destacou. Ele tentou apurar maiores detalhes do que aconteceu, mas o porteiro e o segurança disseram que não viram nada (Recorte de jornal extraído do Álbum Só Pixo s/d apud BARBOSA, 2012, p.55).

Di foi assassinado em 1997, durante uma briga de bar, aos 22 anos e é considerado um mito da pixação. Em 2016, a galeria A7MA, na Vila Madalena (SP), promoveu uma exposição sobre Di. Estive presente na inauguração, muito prestigiada por pixadores na ativa que o tem como referência e ex-pixadores que o conheceram.
Outro episódio, que ganhou ainda mais destaque, foi a pixação no Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, em novembro de 1991, feita por Fábio Luis da Silva, o Binho, e Ayres Monteiro de Araújo Neto, o Neto, ambos com 17 anos na época. Após a ação, os pixadores ligaram para a Rede Globo para anunciar o feito.

Violência no pixo
O final da década de 1990 é marcado pelas brigas entre gangues. O episódio mais violento é conhecido como a “treta” entre Os+IM (Os + Imundos) e Os RGS (Os Registrados no Código Penal), que teve início em 1998. Existem diversas versões para a origem da briga. Entre as principais, está a que as crews, que eram aliadas, começaram a se desentender por conta de problemas pessoais e inveja; outra versão relata que Lin, um dos líderes d’Os RGS, teria assassinado um integrante d’Os+IM. Há ainda uma versão sobre o roubo de 1.400 latas de tinta spray.
A “treta” resultou em 10 anos de atropelo (pixações em cima de outro pixo) entre as gangues. Embora os pixadores não gostem de se envolver e falar sobre o assunto, admitem que a disputa foi muito violenta, com inúmeras brigas de rua e até mortes.
Em 2008, Lin, d’Os RGS, pôs fim à briga durante o indulto de natal. A decisão foi tomada porque muitos jovens da capital e até mesmo do interior de São Paulo brigavam sem sequer saber o motivo da disputa.
Pessoas que não tinha nada a ver com a treta estavam sendo obrigadas a passar sem ao menos saber porque estavam passando por aquilo, foi onde eu dentro da cadeia cheguei no MAGO do RITUAIS que é da quebrada de onde foi inventado OS+IM, e como já nos conhecíamos da rua ficou até mais fácil de chegarmos num entendimento, mas não imaginávamos como poderíamos acabar com essa treta sendo que já tinha arrastado pra vários outros lugares (LIN, online)
Lin nos concedeu entrevista em 2014 para falar a respeito de Ald, dos Jets, e Anormal, pixadores mortos pela polícia militar em junho daquele ano, durante a invasão de um prédio para pixarem. Os cinco PMs envolvidos no caso chegaram a ser detidos pela corregedoria durante as investigações. Em 2017, foram absolvidos das acusações. A Vice cobriu um protesto organizado pelos pixadores após a absolvição.
Pixação é arte?
Além do fim da “treta”, a invasão ao Centro Universitário Belas Artes, em junho de 2008, também está entre fatos marcantes da pixação recente. Rafael Augustaitiz — Rafael Pixobomb ou Opus 666 — aluno da instituição, levou mais de 40 pessoas para pixar durante a exposição que apresentava os trabalhos de conclusão de curso de sua turma. A ação revoltou estudantes e o corpo docente da instituição, que ficou com os corredores, salas, escadas e fachadas tomadas por tags.
Os danos ao patrimônio da faculdade e às obras dos colegas resultaram na expulsão de Rafael, que também foi detido com outros seis pixadores. A ação acendeu o debate sobre a pixação como arte e foi o início de uma série de intervenções do grupo que ficou conhecido como Pixação SP, ou ainda Movimento Além do Bem e do Mal.
Três meses depois, o mesmo grupo invadiu a galeria paulistana Choque Cultural, no bairro de Pinheiros. Os pixadores foram convocados através de um e-mail que dizia “Evadiremos com nossa arte protesto uma bosta de galeria de arte segundo sua ideologia abriga artista do movimento underground. Então é tudo nosso”.
No ano seguinte, houve a invasão à 28ª Bienal de São Paulo. No dia da inauguração da mostra, o Pixação SP pixou o segundo andar, que estava propositalmente vazio para criar a discussão sobre a “crise na arte”. Frases como “Isso que é arte”, “Fora Serra” e “Abaixo a ditadura” foram pichadas, além das tags das grifes Sustos, 4 e Secretos, responsáveis pela invasão. Alguns visitantes aplaudiram a ação. A polícia chegou cerca de 30 minutos após o ocorrido e deteve apenas a pixadora Caroline Pivetta, conhecida como Caroline Sustos . A ação gerou um convite ao grupo para participar da exposição Né dans la rue (Nascidos na rua), na fundação Cartier, em Paris.
Na época, o então ministro da cultura, Juca Ferreira, chegou a pedir para que o governador de São Paulo, José Serra, intervisse contra a prisão da jovem. Caroline ficou detida por 53 dias e foi condenada a quatro anos de prisão em regime semi-aberto por formação de quadrilha e destruição de bem protegido por lei.
Em 2010, os pixadores foram convidados a voltar para a mostra da Bienal, desta vez como artistas. A proposta era debater o tema “Arte e política”. Participaram da mostra Djan Ivson (Cripta), Adriano Choque e Rafael Pixobomb. Os organizadores não previam expor a pixação, apenas folhinhas, convites de festas, vídeos e fotos. Mesmo convidados, os pixadores vandalizaram uma obra de Nuno Ramos e da dupla Kboco e Roberto Loeb.
Cripta afirmou que o ato foi um protesto contra a prisão de seis pixadores mineiros, detidos por formação de quadrilha. Naquele ano, a obra de Nuno Ramos causou polêmica e protestos de ativistas de proteção aos animais porque era um viveiro com urubus. Djan pixou “Libertem os urubu” , e disse que foi impedido de continuar a ação antes de terminar a frase “Libertem os urubus e os pixadores de BH”.
A ação gerou convite para a 7ª Bienal de Berlim, em 2012, que tinha como tema “Forget Fear” (esqueça o medo). Os pixadores Djan (Cripta), Biscoito (União12), William (Operação) e R.C (Cripta) tinham um espaço específico para realizarem seu trabalho, mas, com o propósito de transgredir, pixaram uma igreja tombada pelo patrimônio histórico, onde ministrariam um workshop. O curador, que chegou a chamar a polícia, discutiu com o grupo e recebeu um banho de tinta de Djan. Esse episódio é contado no documentário “Pixadores”, dirigido pelo iraniano Amir Escandari e lançado janeiro de 2014, no Festival de Documentários de Helsinki, na Finlândia.
Djan foi um dos nossos perfilados neste projeto.
Referências
BARBOSA, Alexandre. As marcas da cidade: a dinâmica da pixação em São Paulo. Lua Nova, v. 79, p. 143–162, 2010.
__________________. Quem não é visto, não é lembrado: sociabilidade, escrita, visibilidade e memória na São Paulo da pixação. Cadernos de arte e antropologia, v.1, n.2, p.55–69, 2012.
BINHO. A arruaça vence. Revista Veja São Paulo. São Paulo, p.88–90, 27.nov.1991.
CAJÉ, Sandro. O meio é a paisagem — pixação e grafite como intervenção em São Paulo. 2011. Disponível em: <www.teses.usp.br/teses/disponiveis/93/93131/tde.../sandrocaje.pdf>.
FONSECA, Cristina. A poesia do acaso — na transversal da cidade. São Paulo: T.A. Queiroz, 1981.
LASSALA, Gustavo. Pichação não é pixação. São Paulo: Altamira Editorial, 2010.
LAZZARIN, L. F. Grafite e o ensino da arte. Revista Educação & Realidade. 32(1): 59–74, jan/jun. 2007.
LIN. Dúvidas e curiosidades. Blog Os Registrados no Código Penal. Disponível em: <http://registradosnocodigopenal.webnode.com.br/> Acesso em: 16.mai.2014.
SCHULTZ, Valdemar. Intervenções urbanas, arte e escola: experimentações e afectos no meio urbano e escolar. 19º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. Cachoeira — BA, 2010.